A crítica a Machado de Assis por Sílvio Romero
A
crítica a Machado de Assis por Sílvio Romero
Resumo:
Ao propor a literatura crítica no Brasil, Sílvio Romero estabeleceu novas
alternativas para leitura dos pensamentos e da ficção. E, a partir dele,
abriu-se a crítica no interior de si mesmo, numa autorreflexão, bem peculiar à
modernidade, que faz questionar o papel da literatura na sociedade do século
XIX e no atual contemporaneidade.
Palavras-chave:
Crítica literária. literatura brasileira. Machado de Assis. Sílvio Romero.
Ideologia.
A luta
por uma identidade nacional em nosso país foi feita com auxílio de ideologias
europeias, particularmente de França. Aliás, o início real de nossa colonização
deve-se à Napoleão Bonaparte[1] ao decretar o bloqueio
continental. Os críticos literários tiveram especial destaque ao se dedicarem à
polêmica sobre tais ideias importadas, sem a devida reflexão sobre o que viria
ser e, ainda analisar seu papel na sociedade do século XIX.
Um dos
mais importantes críticos literários foi Sílvio Romero, e nos ataques feitos à
Machado de Assis que percebendo o vazio dessas polêmicas, e passou a se dedicar
a fazer literatura crítica.
Descemos
ao abismo numa espiral com ciclos contínuos em torno da mesma temática quando
observamos os principais críticos literários e, por vezes, há a total ausência
de reflexão sobre o pensamento crítico daquele momento no Brasil, que leva os
nossos intelectuais recaírem em polêmicas infindáveis, sem preencherem o vazio
produzido justamente pela falta de leitores.
O mais
famoso caso de Machado de Assis, sejam por conta dos ataques ou na defesa do
autor de Dom Casmurro, há um discurso imbuído de ideologias importadas do Velho
Continente. Sendo interessante notar que na leitura do Bruxo do Cosme Velho
feita por Sílvio Romero dá para visualizar as justificativas de ele ser
considerado o "papa da crítica brasileira a Machado de Assis".
Apesar
de que em 1879, o Bruxo em seu artigo “A Nova Geração”, onde criticou o estilo
de Sílvio Romero. In litteris:
“Refiro-me ao estilo, condição
indispensável do escritor, indispensável à própria ciência – o estilo que ilumina as
páginas de Renan e de Spencer, e que
Wallace admira como uma das qualidades de Darwin” (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 195).
Percebe-se,
neste texto de Machado demonstrou a consciência da importância do papel primordial que o
estilo representa na retórica da crítica,
na arte de convencer o leitor.
É pela
força do discurso que historiadores, cientistas e homens de ideias em geral
difundem o seu pensamento e tentam
influenciar os seus leitores. Isto é ainda mais verdadeiro quando se trata do ficcional, pois, segundo o nosso
autor, o estilo é condição indispensável. E, ele não o reconhece em Sílvio
Romero.
Eis o
pavio que aceso fez explodir toda fúria de Sílvio Romero que passou a atacar
não apenas o romancista, mas todo aquele que ousasse defendê-lo. E, em inúmeros
artigos vindo até publicar um livro dedicado à crítica de Machado de Assis,
travando-se um duelo de retórica com que se divertida a intelectualidade
brasileira, tão herdeiras de teorias francesas, indo até a questão da
problemática do racismo determinista[2].
Sílvio
Romero chega a chamar Machado de Assis de mau poeta. Na poesia brasileira ele
não foi um abridor de caminhos, bem ao contrário, foi um espírito submisso e
continuador de trilhas conhecidas (Romero, 1936, prefácio).Chegando a concluir
que Machado tem sido elogiado, porém, não tem sido estudado.
Um
questionamento é providencial é sobre a reflexão sobre a função do crítico,
visto tanto naquela época como atualmente, como aquele que guia e dirige,
marcando lugares e definindo determinadas funções.
Porém,
se continuarmos a leitura do texto
citado, veremos que ele contém uma definição bastante significativa do que seria ‘estudar’ para
Sílvio Romero: ler à luz dos três fatores – meio, raça e momento –,
responsáveis pela orientação normal de seu talento, ou seja, uma concepção absolutamente
determinista do que seria a criação
artística.
Nesta
linha, Romero adota o chamado ‘critério nacionalístico’ para julgar o nosso
romancista pois, segundo ele, (...)
Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e aí dele, se saísse. Não teria valor. Ele é um dos nossos,
um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada, por mais que pareça
estranho tocar neste ponto (ROMERO, 1936, p. 28).
Percebe-se
nitidamente a tentativa de enquadramento de Machado de Assis a um brasilidade,
o que lhe deu o direito de escrever com humor e ironia. A contestação do
determinismo biológico reinante no âmbito dos debates sobre o futuro do Brasil
até os anos 30 do século XX conforma o núcleo da defesa da mestiçagem feita por
Freyre. Esse autor reconstrói, a propósito, o processo de constituição do
Brasil desde o período colonial e mostra que a nação brasileira, a despeito da
escravidão e da dizimação de povos indígenas, representa o encontro efetivo de
três grupos humanos, os quais se encontram numa relação de complementaridade
entre si.
Assim
ter-se-ia constituído uma “brasileiridade” - unidade da diversidade -, no
âmbito da qual cada um dos três grupos originais teria deixado uma contribuição
relevante para a constituição do caráter nacional.
Como
mestiço, ele é justamente um dos nossos e só pode escrever como todos os
brasileiros. Há a irritação de Romero pelo fato de que o romancista escapou às
regras, não se submetendo-se.
(...) Machado de Assis que (...) por dez
anos seguidos, até 1870, (...) se manifestou tão plácido, tão brando, tão
sossegado de índole, de aspirações e de estilo, não poderia de repente se transfigurar em
grande filósofo, terrível manejador de ‘humour’,
profundo pensador de espírito dissolvente e irritadiço, envolvendo a criação e
a humanidade nas malhas de um pessimismo fulgurante (ROMERO, 1936, p. 48).
Há o
autoritarismo determinista, segundo o qual um escritor brasileiro, mestiço,
negro, nascido das camadas desfavorecidas, gago, epiléptico não teria menor
chance de escrever, usando os artifícios e técnicas, ou mesmo, os pensamentos
mais complexos e elaborados.
No
caso machadiano, Sílvio Romero depara-se com um autor que se recusa a ser ‘enquadrado’, escapando a todas as
regras da trindade taineana. Isto é o
que mais desequilibra o nosso crítico, essa capacidade (ou ousadia) de Machado
de Assis em desmentir as teorias elaboradas na Europa...
É como
se ele experimentasse uma perplexidade
diante de uma transgressão ao não poderia
tão tranquilizador... Por que motivo pode o autor de Várias Histórias desmentir assim tão flagrantemente as leis do
meio, da raça, e do momento? (ROMERO, 1936, p. 154).
Essa
irritação e perplexidade acabam levando-os a afirmações maldosas que são,
inclusive, contraditórias com as próprias ideias de isenção, imparcialidade e
objetividade do espírito positivista da época. In litteris:
“Ele
gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada, disse-me uma vez não sei que desabusado num
momento de expansão, sem reparar talvez que dava destarte uma verdadeira e
admirável notação” (ROMERO, 1936, p.
55).
Sílvio
Romero passa a condenar Machado de Assis exatamente no mesmo ponto em que fora
por este último atacado: no estilo.
Evidentemente, associando-o a questões biológicas: um estilo gago, como o era o seu autor. Mas,
principalmente, um estilo sem força, sem
paixão, resultante do tão decantado humour:
“Mas o
período não lhe sai possante e largo, porque seus pensamentos não são vastos, ou profundos, ou grandiosos; não lhe
sai também rápido, intenso, incisivo, porque uma paixão forte não o anima ou
move (ROMERO, 1936, p. 65)”.
Romero
cogitou que humor[3]
não poderia ser genuinamente brasileiros, posto que não somos assim, sendo mera
macaqueação europeia, imitação barata e grosseira. Esse humour de
imitação traça ma caricatura desgastada da prática em literatura.
Uma
das coisas mais interessantes sobre o humor francês é a sua habilidade de rir
de si mesmo. Os franceses não têm medo de fazer piadas sobre suas próprias
falhas e limitações. Essa autodepreciação é uma marca registrada do humor
francês e é vista em muitas das piadas e esquetes dos comediantes franceses.
Outra
característica do humor francês é o uso de piadas de primeiro grau e segundo
grau. Piadas de primeiro grau são aquelas que são diretas, literais e fáceis de
entender.
Já as
piadas de segundo grau são mais complexas, metafóricas e exigem um pouco mais
de conhecimento sobre a cultura e a língua francesas. O humor francês é
conhecido por usar muitas piadas de sentido duplo, jogos de palavra e ironia, o
que faz com que a audiência precise estar atenta e participar ativamente do
processo de compreensão da piada.
Outra
curiosidade sobre o humor francês é a sua habilidade de abordar temas
controversos de uma forma engraçada. Os comediantes franceses muitas vezes usam
o humor para falar sobre questões políticas e sociais, sem medo de ofender ou
provocar. Essa abordagem pode ser vista como uma forma de criticar a sociedade
e seus problemas, sem ser demasiado sério ou agressivo.
O
humorista é porque não pode deixar de sê-lo. . Dickens[4], Carlyle, Swift, Sterne[5], Heine, foram humoristas
fatalmente, necessariamente; não poderia
ser por outra forma. A índole, a psicologia, a raça, o meio tinha de fazê-los como foram (ROMERO, 1936, p. 78).
De
acordo com Sílvio Romero, os povos latinos são incapazes de humour. Portanto, a
Machado foi negado de realizá-lo. O que representa mais uma regra transgredida
pela grande indignação do crítica, cuja irritação chega ao clímax quando
abordou o lendário pessimismo machadiano. Considerando também que os
brasileiros não podem ser pessimistas.
In
litteris:
Somos
faladores, maldizentes, desrespeitadores das conveniências, assaz irrequietos,
até onde nos deixa ir nossa ingênita apatia de meridionais, mas não somos pessimistas, nem nos agrada o terrível
desencanto de tudo sob as formas desesperadoras
dos nirvanistas a Budha ou a Schopenhauer[6] (ROMERO, 1936, p. 105)
O
pessimismo machadiano contraria as leis e previsões estabelecidas para a sua
condição de negro, brasileiro e epiléptico. a
análise que Sílvio Romero faz de Machado de Assis, cheia de expressões como não poderia, consiste
em um jogo de interdição/transgressão, em que o Bruxo do Cosme Velho se recusa
a obedecer aos limites que lhe são
impostos pelos herdeiros do determinismo. Sílvio Romero escreve todo um livro,
assim como inúmeros ensaios e capítulos para atacá-lo.
Mas
nunca será rebatido por Machado de Assis[7], que se recusou a entrar na briga, revelando o que em um dos
seus personagens, o Conselheiro Aires, é tão explícito: o tédio à controvérsia
(MACHADO DE ASSIS, 1971, v. 1, p. 965).
Mais
adiante retomaremos essa recusa do romancista em responder aos ataques do crítico,
continuando a encontrá-lo na livraria Garnier,
cumprimentá-lo e fingir não se dar conta do tumulto que ele criava em torno do
seu nome.
Ainda a respeito de Romero, que ele estaria na difícil posição do
intelectual brasileiro que, em uma sociedade
dominada pelo cientificismo positivista, questiona a sua própria identidade,
fruto, segundo essas ideias cientificistas e deterministas, de um povo mestiço,
marcado pela inferioridade racial, na qual ele, Sílvio Romero, acredita piamente.
Crença
que resulta da mistura das teorias de
Gobineau com as de Darwin, fornecendo-lhe material de importância vital na sua obra, e que o levará
até a afirmar a inferioridade do negro e do índio: Todas as nações americanas
em que o elemento europeu não predomina,
como o México, Peru, Equador e Bolívia, são as menos progressivas do continente
Ainda
sugeriu que, no Brasil, será feita espécie de "eugenia" natural, o
tipo branco irá tomando a preponderância até mostrar-se talvez deputado e belo
tal como no Velho Mundo. Será quando já estiver mais bem aclimatado no
continente.[8]
As
inspirações em Gobineau[9], Darwin[10] e Spencer[11] nutriram as ideias de
Sílvio Romero e, mesmo a teoria de Taine[12], com os seus três
fatores, a saber: raça, meio e momento. Romero se pergunta qual dos
três teria contribuído em maior escala
para a formação e diferenciação do caráter brasileiro, optando pela raça: A unidade nacional é garantida, a
meu ver, pelos agentes morais e pela
energia étnica (ROMERO, 1902-1903, v. III, p. 243).
Assim,
o crítico estabelece uma hierarquia em
que a prioridade cabe à etnia e (...) o clima fica em segundo plano (...) já que ele também
(...) foi um agente valentíssimo na formação das raças e das civilizações
autóctones (ROMERO, 1902- 1903, v. III, p. 243).
Isto
é, Sílvio Romero acrescenta as ideias de Montesquieu às de Gobineau, Darwin e
Taine, misturando a teoria da raça, meio e momento com a dos climas. Idéias europeias,
em sua maioria francesas, guiando,
paradoxal e contraditoriamente, o crítico que luta pela libertação da importação do pensamento, para perplexidade
do estudioso da crítica daquele
momento...
E,
priorizando a raça, o crítico Romero afirmou não perceber que as diferenças
tenha o meio produzido no caboclo, no negro e mesmo no português. A olhos nus,
é o mestiço que moveria toda a história brasileira, tão marcado pela questão
étnica e pelo contato de várias culturas.
A
mestiçagem mais relevante é justamente a afro-lusitana. O negro, espalhado pela África e América, é uma raça que oferece
interessantíssimos problemas (ROMERO, 1978,
p. 49).
Podemos
afirmar que Sílvio Romero foi um dos primeiros a destacar a importância do
elemento africano, quando este era praticamente ignorado pela intelectualidade nacional. O que
quer que notardes de diverso entre o
brasileiro e o europeu, atribui-o em sua máxima parte ao preto (ROMERO, 1978,
p. 3).
Para
medir essa importância bastaria, segundo o nosso autor, que se levasse em conta uma mestiçagem muito mais
interessante do que a étnica: a
mestiçagem moral, consequência da educação dos filhos dos senhores de engenho, que cresciam brincando com os
moleques da senzala e ouvindo das ‘mães
pretas’ as histórias do Saci Pererê, do Zumbi, e muitos outros personagens e
elementos da cultura africana. Isto fazia com que, mais tarde, se tornassem inteiramente diferentes dos seus
pais portugueses: eram mestiços moralmente
O
racismo científico[13] no Brasil funcionaria como (...) um instrumento conservador e
autoritário[14]
de definição da identidade social da classe senhorial e dos grupos dirigentes,
perante uma população considerada étnica
e culturalmente inferior (VENTURA, 1991, p. 60).
Seria,
muito provavelmente, o resultado de um
olhar ‘de fora’ lançado ao Brasil, que
teria como consequência a imagem negativa da sociedade e da cultura local. Sílvio Romero, abraçando a ideia da
nação como unidade cultural resultante do cruzamento das três raças, procura
dar conta da sua gênese, inserindo-se na tradição do Iluminismo, que mistura a
busca das raízes com a crença no
progresso.
A
nação se constrói, portanto, no movimento ambíguo entre a identidade e a diferença, entre a
reprodução da experiência europeia e a
sua relativa diferenciação nos trópicos.
Poderíamos
afirmar que Romero se propõe a eliminar a contradição entre a realidade étnica
brasileira, o racismo científico e o liberalismo progressista, através da opção pela
mestiçagem, a que já nos referimos. Ou seja,
pela extinção das raças não brancas através da fusão, da assimilação racial dos
grupos inferiores.
É
nesta linha que Sílvio Romero propõe o ‘branqueamento’
como solução para reabilitar as raças ditas ‘inferiores’, o que seria uma solução para o dilema social sem
contestar os fundamentos do racismo[15].
A rigor
não há a perda daquelas duas raças; há a transformação delas (ROMERO, 1980, v.
II, p. 179), com uma inevitável vitória do branco. Enfim, uma mistura dos princípios
arianistas com as leis darwinistas, evolucionistas e sociais, numa busca de
coerência onde esta é praticamente impossível.
Na
verdade, o que já podemos ir percebendo é que, apesar da aparência em contrário, há uma luta
incessante do crítico pela lógica, pelo
rigor científico, a ponto de tentar adaptar à realidade às suas ideias. O que, evidentemente, vai propiciar a
descoberta de várias contradições na sua
obra, por mais que ele busque exatamente o contrário.
Tentando
descobrir um encadeamento lógico para o seu raciocínio, ele acaba misturando
princípios diferentes. Mas será que poderíamos realmente chamá-lo de contraditório? Ou ele teria sido
simplesmente uma vítima do acúmulo de ideias
europeias mal digeridas que aqui se instalam no século XIX?
No
caso Machado de Assis, Romero se irrita porque o escritor não se comporta como deveria se comportar (ou
escrever) um mestiço, destruindo, portanto, toda a sua teoria... Ora, como
teria reagido o romancista diante de tão duros ataques?
Já vimos que, aparentemente, ele não reagia,
manifestando, através do seu personagem
Conselheiro Aires, o famoso tédio à controvérsia.
E
chega a aconselhar a seus leitores a
nunca se meterem nesse tipo de disputa: Não te envolvas com polêmicas de nenhum gênero,
nem poéticas, nem literárias, nem
quaisquer outras(...) o pugilato das ideias é muito pior do que o das ruas (apud
PUJOL, 1934, p. 237).
Machado acrescenta, a respeito do mesmo tema: Realmente, criticados que se esforçam de
críticas literárias com impropérios dão logo ideia de uma imensa mediocridade –
ou de uma fatuidade sem freio – ou de
ambas as coisas; e para lances tais é que o talento, quando verdadeiro e modesto, deve reservar o silêncio
do desdém (MACHADO DE ASSIS, 1944, p.
237).
Seria
somente por questões de temperamento, como o querem muitos dos seus biógrafos?
Ou seria por duvidar da eficácia de tais polêmicas, que tanto incendiavam a
nossa república das letras?
É
curioso observar que só uma vez Machado aceitou discutir um assunto de crítica literária. E foi exatamente
a respeito do naturalismo, a partir do
romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz, no qual insiste em afirmar que, embora muito admire o romancista
português, recusa a escola naturalista a
que ele pertenceu.
E,
recusa-a, principalmente, porque ela leva a sério a ilusão do real: “Porque a nova poética
é isto e só chegará à perfeição no dia
em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha (MACHADO DE
ASSIS, 1944, p. 163)”.
A obra
causou bastante polêmica quando publicada. Em 09 de março de 1878, no Jornal do
Comércio, o crítico Bastos alegou que “O Primo Basílio”[16] “era uma bela obra de
arte, mas um péssimo livro”. A sua crítica, influenciada pelo despreparo da
sociedade da época, reprovava a forma como as instituições eram desrespeitadas.
A
crítica de “O Primo Basílio” é contra toda a sociedade lisboeta, marcada pela
ociosidade burguesa, a futilidade, a devassidão, a imoralidade, a hipocrisia
social, a superficialidade nos relacionamentos, a falsidade e a arrogância que
o dinheiro parece criar em certos indivíduos.
A
crítica de Machado de Assis ao romance de adultério[17] de Eça de Queiroz poderá
causar a impressão de ser um texto escrito através das tintas da moralidade,
por um homem que tripudiava a traição feminina em enredos literários.
Tal
impressão não procede. Pois a representação machadiana da adúltera deu-se em
Dom Casmurro, com suposta infidelidade de Capitu que é tema de maior relevância
na obra.
Não
admitindo que a imitatio seja suficiente e hábil para a criação
artística, buscando um outro conceito literário, Machado de Assis até aceitou
uma inicial polêmica no caso Eça de Queiroz. Porém, ocorreram muitos protestos
em defesa do autor de Primo Basílio[18], aos quais o Bruxo do
Cosme Velho respondeu apenas timidamente. Mas, se retraiu, fazendo doravante
cada vez menos crítica literária.
Esse
retraimento se deu, pois Machado chegara mesmo ser conhecido no exercício da
crítica. A tal ponto, que, em 1868, José de Alencar lhe pediu para promover o
poeta Castro Alves, então recém-chegado ao Rio de Janeiro, que precisava de uma
indicação para ser bem aceito nos meios literários.
Machado
de Assis já havia sido consagrado na carreira de crítico, considerado o primeiro crítico brasileiro, como dissera
José de Alencar. Entretanto, após a polêmica sobre Eça de Queiroz[19], provavelmente esgotado
pela que envolvera de maneira tão
dolorosa o seu nome, ele deixa praticamente de fazer crítica.
Ou, na
interpretação de Pujol: “Retraiu-se a sua sensibilidade magoada; e, de então por diante, só raramente, em algum
período fugitivo de crônica e num ou
noutro esboço, atreveu-se a fazer crítica literária[20] (PUJOL, 1934, p. 271)”.
Importa-nos,
aqui, questionar a razão pela qual teria deixado o nosso escritor uma carreira tão bem iniciada, que já
lhe valera do maior romancista da época o título de maior crítico brasileiro.
Seria,
realmente, por não ser capaz de
enfrentar a polêmica em torno do seu nome? Por simples tédio à controvérsia, para responder com o silêncio
do desdém?
Progressivamente,
a partir da referida polêmica que envolveu quase toda a intelectualidade
brasileira do momento, Machado de Assis passou a fazer cada vez menos crítica
literária. E, teve verdadeiro horror às controvérsias que tanto preenchiam o
vazio do pensamento na sua época.
Carlos
de Laet[21] conta que, certa vez,
para implicar com ele, disse ao romancista que ainda ia obrigá-lo a ter com ele
uma polêmica. Machado teria retrucado, imediatamente: “Não faça tal,
respondeu-me a gaguejar[22] ligeiramente, que os
partidos não seriam iguais; isso para
você seria uma festa, uma missa cantada na sua capela; e para mim uma aflição...” (apud
PUJOL, 1934, p. 271).
Seria
mesmo por simples questões de temperamento que nosso escritor teria abandonado a crítica? Não estaríamos nós
caindo no mesmo caso dos que o explicam
pelos dados da sua vida, ou dos seus condicionamentos biológicos?
Na
verdade, se atentarmos para a data do artigo “A Nova Geração”, 1879, veremos que ele antecede de um ano as
Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro
que se abre para uma série de problemas que, se antes germinavam na ficção
machadiana, agora despontam com força total.
Poderíamos
mesmo pensar que, diante da polêmica
envolvendo o seu nome e atraindo tantos
intelectuais da época, Machado de Assis, por timidez, por tédio à controvérsia, ou por não acreditar na eficácia
de tais querelas, recusa-se a participar
delas, tentando descobrir uma outra maneira de provocar, fazer apelo, dar piparotes no seu leitor.
E
encontra, na ficção, um meio de responder mais eficaz, talvez mesmo a solução
para a questão da crítica...
Observamos
que Memórias Póstumas de Brás Cubas questiona a própria literatura, tal como
era praticada até então, desde a sua dedicatória:
“Ao
verme Que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa
lembrança estas”. MEMÓRIAS PÓSTUMAS (MACHADO DE ASSIS, 1971, v.I, p. 511)
Trata-se
de um apelo ao leitor, forçando-o a
refletir sobre as técnicas da narrativa
tradicional, linear, imitadora da escrita da História.
Assim,
quem escreve o romance é um defunto autor, para quem a campa foi outro berço (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p.
513), ou seja, a morte do personagem
suscita a vida do autor, para grande perplexidade do leitor. O que significaria essa morte que engendra a
vida? O que seria preciso morrer para
fazer viver?
Teria
essa metáfora alguma coisa a ver com a questão da crítica no momento, que morria simplesmente
porque caíra no vazio estéril da
polêmica, da retórica, da pura importação de ideias, sem reflexão adequada?
Seria preciso matar essa crítica, eliminá-la pela sua ineficácia (como morrera Brás Cubas), para que ela ressurgisse
na ficção, questionando a própria literatura, bem como o sistema ideológico em
que esta se desenvolvia?
Aceitando
essas suposições, a explicação fornecida pelo defunto autor ao seu possível
leitor pode nos fornecer mais algumas pistas para descobrirmos a resposta que
Machado dava a seus contemporâneos:
Trata-se,
na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de
Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de
finado. Escrevi-a com a pena da galhofa
e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p.
513).
Os
estudos sobre as influências inglesas no humour machadiano, essa mistura de
negro ceticismo com o riso, associação que o próprio autor define tão bem na
metáfora da pena da galhofa e a tinta da
melancolia.
Isso
nos leva a crer que esse conúbio continha a pista para explicar o seu comportamento durante toda
a polêmica com o seu nome. Tédio à
controvérsia, é lógico, sobretudo porque a controvérsia se dá a partir de temas inteiramente vazios.
Machado[23] nos deixa entrever nessa
advertência é que é preciso manter o silêncio do desdém quando se trata de polêmicas literárias. Silêncio que
significa ceticismo, descrença total na
possibilidade de atuação com tais armas.
Ceticismo
que, por sua vez, engendra o riso
irônico, produzindo o humour. Em que molde, a não ser o humorístico, havia Machado de Assis de
vazar a virtude criadora que o impeliu
para a Arte? (MAYA, 1912, p. 51), pergunta Alcides Maya[24] no seu interessante trabalho.
Teriam,
realmente, a timidez e o tédio à controvérsia impedido o nosso autor de entrar por esse caminho? Ou foi a
certeza do vazio, da ineficácia dessas
polêmicas que o levaram a praticamente abandonar a crítica literária, passando
a fazer, desde então, literatura crítica?
Nas
próprias “Memórias Póstumas” temos um exemplo bem expressivo dessa retórica
vazia que Machado recusou. Narrando o
seu próprio enterro, o defunto autor relata o discurso que um amigo proferira à beira do seu
túmulo:
“Vós,
que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de
um dos mais belos caracteres que têm
honrado a humanidade”.
Este
ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como
um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas
entranhas, tudo isso é um sublime louvor
ao nosso ilustre finado (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 514).
Ironia,
principalmente quando nos lembramos que
o leitor machadiano pertence ao mesmo meio que o amigo de Brás Cubas, ou seja, é, muito
provavelmente, capaz de fazer ou de
aprovar esse tipo de discurso, pois está afeito a esse uso da retórica, tão arraigado no nosso país.
Ou,
com Luiz Costa Lima: (...) em Machado a crítica da retórica assume desde logo a
função de mostrar seu papel no Novo
Mundo: o papel de encobrir o vazio, de dar-se ares de importância... a alusão
irônica ao leitor assume seu verdadeiro peso ao notarmos que este pertencia ao mesmo meio dos usuários
da retórica (1981, p. 64).
Isto
fica ainda mais explícito no famoso conto publicado em 1882, em “Papéis Avulsos”, a “Teoria do Medalhão”[25], em que um pai aconselha
ao filho, que completa vinte e um anos,
a abraçar a carreira de medalhão, como garantia de sucesso na sociedade.
Diz o personagem: Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias
que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter
absolutamente (MACHADO DE ASSIS, 191, v.
II, p. 290).
E,
para alcançar esse resultado de ausência total de ideias, (...) há um meio, é lançar
mão de um regímen debilitante, ler compêndios
de retórica, ouvir certos discursos, etc. (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. II, p. 290).
Assim,
a retórica serve para preencher o vazio que a falta de reflexão provocara na sociedade. Leitor e assimilador
das ideias europeias, mas não conseguindo
adaptá-las conveniente e adequadamente aos trópicos, ao intelectual só resta a
disputa estéril, o discurso sem conteúdo, com que a crítica disfarçava o impasse em que
caíra. E que era garantia total de sucesso na sociedade.
Em
Papéis avulsos, o mesmo livro em que publica a Teoria do Medalhão, encontramos o conto “O Alienista[26]”, no qual o tratamento
dessas questões é ainda mais sutil, e
mais contundente. O conto nos fornece farto material para investigarmos a visão machadiana
das ideias cientificistas e deterministas
importadas.
No
início do texto ficamos sabendo que Simão Bacamarte, médico que havia estudado em
Coimbra e Pádua, havia escolhido Dona Evarista para esposa porque ela (...) reunia condições fisiológicas e
anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom
pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos
e inteligentes (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 254).
As
razões da sua escolha são ditadas pelas ideias que ele aprendera na Europa. Mas
Dona Evarista continua estéril, o que provaria a ineficácia da ciência.
Recusando a se conscientizar desta verdade, Simão continua a acreditar nos métodos científicos: ela não
engravida porque não aceita a dieta
imposta por ele, médico renomado. Bacamarte encarnaria, assim, a própria figura do cientista forjado pelo
século XIX[27],
que vai de teoria em teoria em busca da verdade, sem nunca a encontrar.
Assim,
vai pouco a pouco internando toda a cidade de Itaguaí no manicômio, pois cada
habitante lhe parece corresponder a uma
das hipóteses que ele está pesquisando. E note-se que ele é inteiramente honesto, não
aceita nem mesmo remuneração, o que o move é realmente a paixão pela ciência.
Tão
honesto que, no fim, acaba se
conscientizando da sua própria loucura e vai ele mesmo para a “Casa Verde”[28]. Estaria Machado
metaforizando o suicídio da razão, perdida entre teorias que se contrapõem,
vagando de experiência em experiência até
chegar ao seu único termo possível: a loucura?
Seria isto
mais uma pista para o seu leitor,
fazendo-o rir da busca infrutífera de Simão? Poderíamos considerar que Machado quer ‘corroer’ o
sistema de pensamento vigente através da
única arma de que dispõe: a escrita?
Machado
ironizou também a aplicação da ciência à filosofia, apresentando um dos loucos como evolucionista: Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a
espada, a espada engendrou Davi, Davi
engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que
sou eu (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. II,
p. 257).
Trata-se,
evidentemente, da associação da ciência à ambição do poder, já que este louco se crê marquês e, o que é
mais, descendente de Deus. Loucura da razão que se perde em meio a tantas
teorias, sim, mas que busca sempre uma
ordenação lógica. Como afirma Luiz Costa Lima, (...) é neste ambiente positivista e catalogador que a
loucura é encarada como doença e privação
(COSTA LIMA, 1991, p. 264).
Uma
crítica veemente de um sistema vazio de ideias, em que o que conta é a frase bonita, a retórica
brilhante a esconder a nulidade do
pensamento. E tudo isso sob a aparência de um embasamento científico, numa união entre retórica e ciência, em que a
segunda serve de apoio à primeira.
Ou,
nas palavras de Barreto Filho: “O Alienista” pode se alimentar em certas fontes
gerais do humorismo[29], mas é uma sátira muito
precisa de defeitos nossos, especialmente de nossa imaturidade política, que
nos tornava candidatos à tirania. É uma instalação em miniatura de uma ditadura
científica, na vila de Itaguaí, pelo doutor Simão Bacamarte (BARRETO FILHO, 1980, p. 112)
Machado
descobre a única maneira possível de pensar criticamente a sociedade do seu tempo e, ao mesmo tempo,
ser aplaudido por essa mesma sociedade.
Sua
crítica, muito mais vigorosa do que a dos seus pares, pois vai atacar inclusive
as ideias que teriam gerado a própria crítica literária brasileira, tem
possibilidades de atingir um público mais amplo do que os simples textos teóricos, lidos
somente pela intelectualidade do momento.
E, ironicamente, por causa da sua escrita em palimpsesto, ele vai justamente ser aplaudido e elogiado pelo mesmo
sistema que está querendo questionar.
Paradoxal
é o drama do intelectual burguês, que pensa o mundo sem conseguir modificá-lo,
que critica a sociedade e a sua classe social, embora continue pertencendo a ela, sua única salvação
possível é a ficção, única saída para
passar adiante uma visão lúcida do mundo.
Poucos
são os que o entendem, tanto na sua
época como nos dias de hoje. Mas isto já estava previsto, como podemos perceber ainda nas
primeiras páginas das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.
Consciente
de que a sua ficção crítica não será entendida pelo leitor, Machado se contenta com os poucos que o
puderem compreender. Assim fazendo, ele
estaria lançando a semente para a liberdade da literatura brasileira[30] com que sonhava, embora
tenha que usar estratégias para lançá-la.
E,
como semente, ela seria em pequena quantidade, poucos leitores a compreendê-lo,
mas que pudessem, a partir da sua obra, refletir criticamente sobre as questões que ele apresenta.
Machado,
que volta a ser redescoberto atualmente, continua a ser enaltecido pelo que, no
nosso entendimento, ele não é, principalmente: pelo estilo, pelos seus personagens, ou, na melhor
das hipóteses, pela técnica narrativa.
No
centenário do óbito de Machado de Assis, em 2008, fora marcado por inúmeras
homenagens a quem é considerado o maior escritor brasileiro. E, sua obra
continua a impressionar até hoje, pois parece ficar mais atual à medida que o
tempo passa. Os textos de Machado abordam, com visão aguda e de forma
elaborada, vários aspectos da vida humana.
Ocupa
um lugar único na literatura brasileira, pois foi algumas vezes criticado
porque se dizia que não abordava as grandes questões sociais e nacionais.
Posteriormente, novos estudos fizeram uma reavaliação de sua obra, que é vista
agora como extremamente crítica e expressiva de transformações profundas na
sociedade brasileira a partir do fim do século XIX. Sua genialidade resultou de
ser u dos autores mais compreendido pelo leitor contemporâneo.
O
crítico sofisticado da sociedade do seu tempo, das ideologias dominantes na sua época, da importação de ideas
sem um pensamento local que as adapte adequadamente, continua restrito aos
cinco leitores que ele espera encontrar
para as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.
Ou
seja, aos poucos que perceberam a sua
escrita em palimpsesto[31] pela qual, na sua obra da chamada segunda fase, há um texto,
aparentemente inofensivo, capaz de agradar ao público da época pelo casticismo
da linguagem e pela intriga, mas que
esconde, sob ele, um texto primeiro muito mais perigoso. A traição intrínseca
das relações humanas e dos diálogos silenciosos.
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[1]
Não sei se você parou para analisar, mas o Brasil existe, por culpa de Napoleão
Bonaparte, e seu bloqueio continental. O que conduziu a Coroa Portuguesa para a
Colônia.
Napoleão Bonaparte nasceu
em 15 de agosto de 1769 e virou tenente já aos 16 anos de idade e, tal
precocidade se deve a sua exímia dedicação aos estudos militares.
[2]
O caráter eurocêntrico das teses geopolíticas fundadas sobre o prisma do
determinismo racial e geográfico de forma a compreender se seu discurso de
autoridade legitima a expansão do sistema moderno/colonial e a articulação
espacial do poder cristalizada em conseguinte, tendo em vista que remete a
classificação social de agrupamentos humanos a partir da ideia de raça e de seu
ambiente geográfico. Já durante o Iluminismo, o determinismo racial e
geográfico pode ser observado a partir do
pensamento de filósofos
como Montesquieu e Kant (LIVINGSTONE, 2011, p. 371). Por um lado, Montesquieu
(2000), dispondo de herança helênica, debita à situação geográfica as
diferenças em termos culturais, morais, de caráter e do sistema legal. É mister
o título do capítulo segundo do livro décimo quarto de O Espírito das leis:
“Quanto os homens são diferentes nos diversos climas” (MONTESQUIEU, 2000, p.
239).
[3]
Buscou-se descrever a “ironia” e o “humor” contidos nos referidos textos. O
trabalho teve como enfoque mostrar e sugerir uma reflexão crítica acerca dos
valores humanos, tendo como pano de fundo os costumes sociais da época.
[4]
Memórias Póstumas se revelou muito mais que a narrativa de caprichos,
conquistas e pequenos entreveros, manias e atitudes levianas de Brás Cubas,
embora também o seja. Apesar da expectativa de vácuo que possa pairar em torno
das lembranças de um homem rico e enfadado,, o que acontece de fato é que a
morte potencializar sua capacidade de análise e, isso lhe permite reexaminar
sua existência de forma profunda e até aguda. De forma similar, ao que
aconteceu com a burguesia na Inglaterra entre os séculos XCII e XVIII, a classe
burguesa no Brasil no final do século XIX também ambicionava uma influência
política e um reconhecimento social à altura de seu poder financeiro. O
reconhecimento de traços de humor inglês representou grave transgressão
literária sem precedentes no ambiente brasileiro da época. E, tal presença fora
denunciada pelos críticos brasileiros que sobreviveram aos rigores da Era
Vitoriana e permanecido vivos nas obras de Charles Dickens e Carlyle, entre
outros humoristas ingleses do século XIX.
[5]
A respeito expressões humorismo doentio e pessimismo bem-humorado reflete duas
intensidades da mesma associação entre humor e pessimismo que particulariza o
humor machadiano no grande espectro da tradição do humor inglês, amadurecida em
Sterne e, ainda, pujante em sua configuração de Dickens no século XIX. Esse
sofisticado conceito de humor, com suas raízes lançadas no solo dos séculos e
torção pessimista de Machado de Assis, não chegava a rivalizar na época com
outro entendimento, bem mais comum: o do humor como qualidade simples que
desperte o riso, mesmo que seja fácil ou
grosseiro.
[6]
O livro que Machado de Assis tem nas mãos é “O mundo como vontade e
representação”, segundo volume, capítulo 44, intitulado "Metafísica do
Amor", do filósofo Arthur Schopenhauer. Machado resume em sua crônica o
assunto desse livro em poucas palavras: Há na principal das obras daquele
filósofo um capítulo destinado a explicar as causas transcendentes do amor.
(...) A explicação é que dois namorados não se escolhem um ao outro pelas
causas individuais que presumem, mas porque um ser, que só pode vir deles, os
incita e conjuga. Vejamos agora como Schopenhauer explica essa sua teoria na
"Metafísica do Amor". As questões amorosas desempenham um papel muito
importante na obra do filósofo de Dantzig. Não se trata simplesmente de
"cada João encontrar a sua Maria", de cada Guimarães encontrar a sua
Cristina, mas da "composição da próxima geração", de um, Abílio,
talvez. Através do tema do amor, Schopenhauer apresenta filosoficamente a trama
do grande drama cósmico a existência.
E o enredo dessa peça é algo trágico-cômico.
[7]
A morte de Machado de Assis serviu para fundamentar o processo de consagração e
embranquecimento do escritor, cuja infância e adolescência pobre, no morro do
Livramento, na Saúde, são suprimidas das louvações que são feitas na mídia à
figura do então fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1908, morador do
Cosme Velho, um bairro de elite. Noutra foto de Machado, com 30 ou 40 anos,
mostrando o escritor com cabelos crespos, em estilo asa-delta, bigode, feições
africanas, Machado parece ser como ele era naturalmente. No entanto, poucas
vezes, os editores de cadernos culturais lançam mão dessa foto para ilustrar
matérias com Machado de Assis. Trata-se da foto mais “afro” do escritor, uma
espécie de denúncia das origens machadianas. Somente a partir de 1939, ano da
comemoração do centenário de nascimento do escritor, as elites intelectuais se
mostram mais inquietas e céticas em relação à história de um mulato que se
tornou em todos os tempos a maior glória da literatura brasileira.
[8]
Em carta enviada a Machado de Assis durante uma estadia em São Paulo, o crítico
Capistrano de Abreu já lhe antecipa que percebe em Memórias Póstumas uma
intenção latente, porém, imanente a todos os devaneios, e eu não sei se
conseguirei descobri-la. Na volta ao Rio de Janeiro, Capistrano de Abreu
publicou uma crítica em duas partes na seção "Livros er Letras": a
primeira, no dia 31 de janeiro de 1881,e, a segunda, no dia 01 de fevereiro. Ao
contrário de Capistrano de Abreu, que se indaga sobre a natureza de Memórias
Póstumas no sistema tradicional da literatura. Durante tem certeza de que não
se trata de um romance, mas sim de um ensaio filosófico sob forma de romance.
Por isso, avisa o leitor vulgar pouco pasto achará para sua imaginação e
curiosidade banais.
[9]
Joseph Arthur de Gobineau (Ville-d'Avray, 14 de julho de 1816 — Turim, 13 de
outubro de 1882) foi um diplomata, escritor e filósofo francês. Foi um dos mais relevantes teóricos do
racismo no século XIX. Segundo ele, a mistura de raças (miscigenação) era
inevitável e levaria a raça humana a graus sempre maiores de degenerescência física e intelectual. É-lhe
atribuída a frase: “Não creio que viemos dos macacos mas creio que vamos nessa
direção.” Sua segunda missão diplomática foi no Brasil, aonde chegou em 1869,
enviado por Napoleão III. Nunca escondeu sua animosidade para com o país, que
deixou um ano depois (1870). Travou
amizade com o imperador Pedro II que, mesmo sem compartilhar muitas de suas
ideias, manteve uma amizade epistolar durante muitos anos depois de sua partida
do Brasil. Além de Gobineau, Louis Agassiz foi outro viajante que representou o
ponto de vista do racismo científico (racialismo).
[10]
Charles Robert Darwin, Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 – Downe, 19 de abril
de 1882) foi um naturalista, geólogo e biólogo britânico, célebre por seus
avanços sobre evolução nas ciências biológicas. Juntamente com Alfred Wallace,
Darwin estabeleceu a ideia que todos os seres vivos descendem de um ancestral
em comum, argumento agora amplamente aceito e
considerado um conceito fundamental no meio científico, e propôs a
teoria de que os ramos evolutivos são resultados de seleção natural e sexual,
onde a luta pela sobrevivência resulta em consequências similares às da seleção
artificial. Seu livro de 1859, A Origem das Espécies, causou espanto na
sociedade e comunidade científica da época, mas conseguiu grande aceitação nas
décadas seguintes, superando a rejeição que os cientistas tinham pela
transmutação de espécies. Já em 1870, a evolução por seleção natural tinha
apoio da maioria dos intelectuais. Sua aceitação quase universal, entretanto,
não foi atingida até à emergência da síntese evolutiva moderna entre as décadas
de 1930 e 1950 quando um grande consenso consolidou a seleção natural como o
mecanismo básico da evolução. A teoria
de Darwin é considerada o mecanismo unificador para explicar a vida e a
diversidade na Terra.
[11]
Herbert Spencer foi um filósofo, biólogo e antropólogo inglês, bem como um dos
representantes do liberalismo clássico. Spencer foi um profundo admirador da
obra de Charles Darwin. É dele a expressão "sobrevivência do mais
apto", e em sua obra procurou aplicar as leis da evolução a todos os
níveis da atividade humana. Herbert Spencer aplicou as leis evolucionistas à
filosofia e à sociedade. No entanto, essas aplicações darwinistas justificavam
a dominação de alguns povos sobre outros, bem como a supremacia de uma raça
humana sobre outra.
[12]
Hippolyte Adolphe Taine (Vouziers, Champanha-Ardenas, 21 de abril de 1828 –
Paris, 5 de março de 1893) foi um crítico e historiador francês, membro da
Academia francesa (cadeira 25: 1878-1893). Foi um dos expoentes do Positivismo
do século XIX, na França. O Método de Taine consistia em fazer história e
compreender o homem à luz de três fatores determinantes: meio ambiente, raça e
momento histórico. Estas teorias foram aplicadas ao movimento artístico
realista. Taine teve um efeito profundo na literatura francesa; a Encyclopædia
Britannica de 1911 afirmava que "o tom que permeia as obras de Zola,
Bourget e Maupassan pode ser imediatamente atribuído à influência que chamamos
de Taine". Através de seu trabalho sobre a Revolução Francesa, Taine foi creditado
como tendo "forjado a estrutura arquitetônica da moderna historiografia de
direita francesa".
[13]
Racismo científico ou racismo biológico é a crença pseudocientífica de que
existem evidências empíricas que apoiam ou justificam o racismo (discriminação
racial) ou a inferioridade ou superioridade racial. O racismo científico
recorre a conceitos de antropologia, antropometria, craniometria e outras
disciplinas ou pseudo-disciplinas para propor tipologias que apoiem a
classificação das populações humanas em raças fisicamente distintas, que possam
ser classificadas como superiores ou inferiores. Atualmente as noções de
racismo científico não são consideradas ciência e o termo é usado de forma
pejorativa para se referir a ideias pseudocientíficas. O racismo científico foi
relativamente comum no período entre o século XVII e o fim da II Guerra
Mundial. Embora a partir da segunda metade do século XX tenha sido considerado
obsoleto e desacreditado, em alguns meios continuou a ser usado para apoiar ou
legitimar a ideias racistas, baseadas na crença de que existem categorias
raciais e raças hierarquicamente inferiores e superiores. Após o fim da II
Guerra Mundial passou a ser denunciado em termos formais. Os avanços na
genética populacional humana mostraram que as diferenças genéticas são
praticamente todas as graduais.
[14]
O surgimento do racismo científico no século XIX e seus respectivos
desdobramentos na política e na sociedade do período têm sido amplamente
debatido entre os historiadores, sociólogos e antropólogos. Sobrepondo-se aos
dogmas religiosos reinantes até então, as teorias raciais deram status
científico às desigualdades entre os seres humanos e, por meio do conceito de
raça, puderam classificar a humanidade, fazendo uso de sofisticadas taxonomias
(SCHWARCZ, 1993).
[15]
O escritor e ensaísta goiano Martiniano José Silva, na obra ” Racismo à
Brasileira: Raízes Históricas”, (Editora Popular, Goiânia, 1985), dedica um dos
capítulos do livro a estudar a literatura de Machado de Assis em contraposição
a sua situação racial. Martiniano, mais contundente que Simone, faz uma análise
impiedosa do escritor, mostrando diversas facetas de sua negação a sua cor.
Selecionamos alguns trechos da obra de Silva para quer possam ser comparados e
refletidos num tópico tal como ” Literatura e relações raciais no Brasil”
[16]
Em O Primo Basílio, o escritor também conhecido por O Crime do Padre Amaro, A
Ilustre Casa de Ramires, A Correspondência de Fradique Mendes, entre outros,
deflagra a podridão de um lar aparentemente perfeito, faz críticas ao casamento
enquanto instituição falida e traz inovações nas técnicas narrativas. Através
do uso do tempo cronológico linear, de um narrador onisciente apegado aos
personagens e excesso de detalhes na descrição dos ambientes, Eça de Queirós
tece a sua crítica ao excesso de imaginação romântica, tendo a personagem Luísa
como a representante das confusões entre sentimentos dicotômicos, tais como
amor e desejo, figura que adorna a narrativa como um dos arquétipos da falta de
moral e respeito que assolava a sociedade lisboeta nos últimos anos do século
XIX.
[17]
O adultério feminino foi sempre considerado mais grave do que o masculino. E,
até havia a famosa “legítima defesa da honra”, atualmente não mais considerada
pelo STF. De qualquer forma, analisar a condição feminina em Capitu e na obra
de Machado de Assis nos permite perceber o caminho evolutivo e histórico que
acompanhou as penalidades possíveis e atuais.
[18]
O Primo Basílio é uma das obras mais emblemáticas do escritor realista
português Eça de Queirós. Publicada em 1878, o romance é um retrato fiel da
sociedade portuguesa da época com ênfase para a hipocrisia da classe burguesa.
A obra retrata a história do casal Jorge e Luísa, pertencentes à burguesia
portuguesa do século XIX. A trama passa-se em Lisboa, na capital portuguesa.
Jorge, marido de Luísa, vai viajar a trabalho e ela recebe a visita de seu
primo Basílio. Nesse ínterim, eles que já tiveram uma relação anterior, acabam
por consumar o desejo latente. Vale notar que a relação de Jorge e Luísa estava
mais baseada no interesse, uma vez que, de fato, eles não viviam uma vida feliz
juntos. Jorge era um excelente marido que sempre estava preocupado em agradar
sua bela esposa. Lhe dava diversos presentes e sempre estava disposto a lhe
oferecer conforto.
[19]
A obra causou bastante polêmica quando publicada. Em 09 de março de 1878, no
Jornal do Comércio, o crítico Bastos alegou que O Primo Basílio “era uma bela
obra de arte, mas um péssimo livro”. A sua crítica, influenciada pelo
despreparo da sociedade da época, reprovava a forma como as instituições eram
desrespeitadas. A crítica de O Primo Basílio é contra toda a sociedade
lisboeta, marcada pela ociosidade burguesa, a futilidade, a devassidão, a
imoralidade, a hipocrisia social, a superficialidade nos relacionamentos, a
falsidade e a arrogância que o dinheiro parece criar em certos indivíduos.
[20]
A crítica literária é o estudo, discussão, avaliação e interpretação da
literatura. Pode assumir a forma de um discurso teórico baseado na teoria da
literatura ou um discurso mais detalhado, apresentação ou revisão de uma obra
literária (muitas vezes na forma jornalística quando é publicada). Compreender
a função da crítica literária como validadora de uma obra. A teoria literária,
que se configura como uma proposta de interpretação do fenômeno literário, é
uma construção discursiva da qual participam muitos agentes, inclusive os
autores e os leitores. Diante disso, para dar conta das produções literárias,
compreender seus mecanismos de realização do modo mais eficiente possível,
temos diversos movimentos teóricos importantes. A crítica literária utiliza-se
da teoria literária para afirmar se a proposta da interpretação da obra
literária é válida como expressão artística. Aquela divide com a escola e a
universidade a função de julgar a produção literária de seu tempo,
estabelecendo o que cada época julga importante em termos artísticos e
culturais.
[21]
Carlos Maximiliano Pimenta de Laet foi um jornalista, professor e poeta
brasileiro. Carlos de Laet (Carlos Maximiliano Pimenta de Laet), jornalista,
professor e poeta, nasceu em 3 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro, RJ, e
faleceu também no Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1927. Convidado para a
última sessão preparatória da instalação da Academia, em 28 de janeiro de 1897,
foi o fundador da cadeira n. 32, que tem como patrono Araújo Porto-Alegre. Na
Academia Brasileira, Laet recebeu sempre provas de apreço e consideração de
seus companheiros. Eleito presidente em 1919, na vaga de Rui Barbosa, exerceu
três mandatos até 1922, quando renunciou. Foi presidente da primeira comissão
do Dicionário da Academia.
[22]
Machado de Assis] carregava consigo, lá no fundo do coração, suas mágoas. O
preconceito sofrido por ser mulato, a epilepsia e, além disso, a gagueira.
Certa ocasião, conversava fluentemente com uma atriz famosa da época. Ao
perceber a sua fluência, a atriz comentou: - Tinham-me dito que o senhor era
muito gago e, no entanto, vejo que fala muito bem! Machado se descontrolou e
começou a gaguejar, respondendo: - Calúnias... A mim também me avisaram de que
a senhora era muito estúpida, e vejo que não é tanto! Fonte: Rosa, Nereide S.
S. (1998). Machado de Assis. Callis Editora, p. 26.
[23]
Segundo Carlos Nobre, citando Joaquim
Nabuco, em carta a José Veríssimo após a morte de Machado de Assis), in
litteris: “Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria
chamado Machado de Assis de mulato e penso que lhe doeria mais do que essa
síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava;
quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita
caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” ( Joaquim Nabuco,
em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis ). Sentiu na pele a
estupidez do racismo, ao presenciar a tenaz resistência da família da esposa –
Carolina Xavier de Novais – ao seu casamento pelo fato de ser mulato. E não
raro, não se rebelou.
[24]
Alcides Maia (Alcides Castilho Maia), jornalista, político, contista,
romancista e ensaísta, nasceu em São Gabriel, RS, em 15 de setembro de 1878, e
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 2 de outubro de 1944. Seu pai, Henrique Maia
de Castilho, era funcionário federal e de origem citadina.
[25]
Este conto é um diálogo que se dá entre pai e filho, após o jantar comemorativo
de 21 anos deste. Estando os dois a sós, o pai aconselha ao filho tornar-se um
Medalhão, ou seja, alguém que conseguiu
conquistar riqueza e fama. Ele passa, então, a tecer uma teoria de como o filho
conseguiria isso, aconselhando-o a mudar seus hábitos e costumes, anulando seus
gostos e opiniões pessoais. O filho deveria sempre se manter neutro perante
tudo, possuir vocabulário limitado e conhecer pouco, e sempre preferir um humor
mais simples e direto ao invés da ironia, que requeria certo raciocínio e
construção imaginativa. Após muitos conselhos, o pai termina a conversa
admitindo que suas palavras têm certa semelhança com a obra "O
Príncipe", de Maquiavel, e diz para o filho dormir.
[26]
Narrado em terceira pessoa, o livro revela a dedicação do Doutor Simão que, na
verdade, fica obcecado com seus estudos na área de psiquiatria. Além disso, ele
aborda os temas dos interesses políticos, da ambição e do poder na figura de
Porfírio. Críticas ao cientificismo (e de certa forma, também ao naturalismo) e
uma linguagem simples, cativante, constantemente citando ou se aproximando da
crônica, O Alienista nos mostra os perigos do exagero em qualquer situação em
que o julgamento deverá mudar, isolar ou classificar pessoas em um determinado
grupo.
[27]
Doenças epidêmicas matam muita gente. Os morros abrigam estabelecimentos
militares, ordens religiosas e os ricos, com suas chácaras e casarões (os
pobres serão expulsos para lá apenas a partir da virada do século 19 para o
20). O Morro do Livramento abriga uma grande família rica de origem portuguesa,
com muitos agregados e escravos. Um dia, chega ali o pintor de paredes e
dourador Francisco José de Assis, “pardo forro”, de 32 anos, para prestar
serviço. Apesar da vitalidade de sua obra para escancarar a escravidão e o
racismo e das feições afrodescendentes delineadas por sua máscara mortuária, em
seu atestado de óbito vai constar que ele era branco. Assim, começa a
construção de uma farsa. Branco, elitista, um “europeu heleno”. E mais ainda:
na visão de seus críticos, indiferente à escravidão em sua vida e em sua obra.
[28] Coincidência
das janelas verdes entre Machado e Eça. No conto O alienista, Machado situa na
Rua Nova da cidade de Itaguaí a Casa Verde e explica:
“A Casa Verde foi o nome
dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam
verdes em Itaguaí.” Em Lisboa, existe a Rua das Janelas Verdes e é lá que Eça
situa o Ramalhete no magnífico romance Os Maias: “A casa que os Maias vieram
habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S.
Francisco de Paula, e em todo o Bairro das Janelas Verdes, pela casa do
Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.”
[29]
Outro Barreto (2007) ao resenhar a obra
Ironia e Humor de Lélia P. Duarte busca sistematizar e descrever o que são
essas duas noções, a ironia e o humor. Segundo ele, a ironia é: “a figura de
retórica em que se diz o contrário do que se diz, o que implica o
reconhecimento da potencialidade de mentira implícita na linguagem” (p. 01).
Assim, a ironia, de um lado, é um recurso de estilo e, de outro, é a própria
explicitação de que a verdade aparente das coisas é apenas aparente; a ironia
revela, escondendo, portanto, ela é central dentro de obras literárias que
trabalham com a realidade do mundo, que vive de aparências e convenções. Sem
dúvida, é central para entender uma obra como a de Machado de Assis e a crítica
que faz à sociedade do século XIX.
[30]
O professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) Eduardo de Assis Duarte, reuniu no livro "Machado de Assis
afrodescendente: escritos de caramujo" (editora Malê) textos do escritor
que tratam de racismo e escravidão. A obra traz poemas, contos, crônicas e
textos de romances que mostram como Machado usou sua produção literária para
atacar o racismo estrutural na sociedade brasileira.
[31]
(Obra cujo conteúdo revela traços, por transformação ou por imitação, de outra
obra anterior). Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José
Pedro Machado, a palavra palimpsesto vem do grego palimpsestos, que significa
“que se raspa para se escrever de novo”, derivando do latim palimpsestu –,
“pergaminho que se raspou para nele se escrever de novo”.
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